DESENVOLVIMENTO X VIOLÊNCIA
Data: 13/10/2008
Após um ano e meio sem escrever para esta coluna, fico feliz em estar novamente em contato com vocês. Neste período, o número de artigos publicados e colunistas que participam desta sessão da Rugbymagazine aumentou consideravelmente, tanto em número como na qualidade dos artigos publicados. É muito bom ver que a iniciativa tomada pelo meu amigo Douglas (que não é o mesmo que já escreveu neste espaço) de criar um meio de difundir idéias e democratizar informações, auxiliando assim o trabalho dos treinadores e organizadores do Rugby no Brasil. O motivo da minha ausência, se deve puramente a falta de tempo. Foi um período de muito trabalho e estudo, e lamentavelmente a falta de recursos destinados para o rugby nos obriga muitas vezes a protelar projetos ligados ao mesmo, isto não significa que não tenha dedicado tempo ao esporte, muito pelo contrário, na verdade só não sobrava tempo para escrever para esta coluna. Também não achei necessário, pois outras pessoas fizeram isto com muito mais propriedade e aptidão. Surgiram dois novos “articulistas” de grande talento, como a professora Ana Kaul (a qual tive o prazer de conhecer pessoalmente no último torneio de inverno em Atibaia) e o Sr Sebastián, os dois abordam o tema do rugby infantil e escolar, que sem dúvida será o pilar do desenvolvimento do rugby brasileiro. Acredito que hoje todos temos plena certeza de que sem as categorias de base, estaríamos fadados à estagnação no cenário mundial do rugby, e mais, ao retrocesso talvez dentro do cenário nacional esportivo. Paralelamente ao desenvolvimento do Rugbymagazine também acompanhei o amadurecimento e a implantação do excelente projeto “Rugby 2011”, que também foca o desenvolvimento do rugby infanto-juvenil, com maestria empresarial, própria dos seus idealizadores, todos homens oriundos do mundo do Rugby e dos negócios, criando assim um projeto de desenvolvimento não somente baseado em desejos, mas sim com uma base de sustentação econômica e profissional que deve colocar dito projeto na vanguarda do rugby nacional, ampliando o número de conhecedores e ou adeptos ao esporte que nós tanto amamos.
Lamentavelmente, não foi nenhum destes fatos que me motivaram a deixar de lado as minhas atividades profissionais para escrever este artigo. Estes fatos por si só merecem, menção e elogios, mas não geram a inquietação motivadora que me traz a este espaço novamente. O real motivo é a falta de cuidados verificados com os valores inerentes ao Rugby. A violência gratuita vista durante os jogos dos últimos torneios nos quais o meu clube participou, gerou em mim a preocupação com o futuro do Rugby e os seus princípios. Vocês podem achar que é exagero da minha parte, ao final de contas no último torneio de inverno ou jogos pelo Brasil afora não temos presenciado brigas ou nada muito grave, mas quando um jogador da minha equipe (ou quaisquer outra) deve ficar de “molho” por três meses como conseqüência de uma cotovelada nas costelas recebida no momento em que se levantava de um ruck, e o que é pior o agressor só tomou um cartão amarelo, isso chamou a minha atenção. No mesmo torneio, durante uma das semifinais também houve uma agressão (que não gerou contusão, o que não a torna menos grave) e o árbitro simplesmente continuou o jogo, sem cartão, sem expulsão dos envolvidos, talvez uma advertência verbal? Não acho que seja o suficiente. E o Capitão da equipe agressora, será que ele tomou alguma atitude? Pediu para o seu jogador se retirar? O técnico talvez? Deixou o seu jogador de molho, o impediu de participar do próximo jogo? Não senhores, nenhuma destas atitudes foram percebidas.
Onde estão os valores deste esporte quando qualquer um de nós pensa em desenvolvimento do rugby, será que esquecemos que não somente temos que ensinar os fundamentos técnicos, mas basicamente os fundamentos morais e éticos que estão inseridos na cultura do rugby? Os árbitros não são os únicos responsáveis pela violência no jogo. Cabe aos treinadores educar e formar seus jogadores para se tornarem dignos deste jogo. Repito o que escrevi em 2002, “..., temos que ensinar valores, educar primeiro o ser humano depois o jogador, formar cidadãos depois estes serão campeões ou não,..; cabe as equipes que se consideram “superiores” e ou “melhores” do que as outras, mostrar que o rugby se joga respeitando e valorizando o adversário, oferecendo um jogo “duro” mas leal, dentro das regras; cabe aos jogadores principalmente os que alguma vez já vestiram a camisa da seleção brasileira, perceber a sua responsabilidade mostrando respeito para com as outras equipes e a torcida em geral, mas principalmente as crianças (que tanto falamos que são o nosso futuro, e que nos observam atentamente, para se espelhar em nossos atos) demonstrando humildade e equilíbrio mental necessário para fazer parte de uma seleção.
Em resumo senhores, cabe a todos nós, a responsabilidade de auxiliar no desenvolvimento do rugby, porque se não colocarmos em prática os valores tantas vezes atribuídos ao nosso esporte, nos nossos clubes, nas nossas escolas, nas nossas arbitragens e em nós mesmos, podemos chegar a ponto de um pai, ou um diretor de escola ou mesmo um secretário de esportes, visualizar uma cena que desmorone todo o esforço de argumentação que fizemos durante meses para convencê-los da diferença educacional e conseqüentemente valorização social que o rugby pode trazer para uma cidade, escola ou filho.
Aí meus senhores, não vai adiantar nada lermos os artigos da Ana ou do Sebastián, pois não teremos material humano para aplicarmos tanto conhecimento. No mundo todo o rugby, em respeito ao público e aos seus jogadores tem realizado esforços para promover o fair play. O Brasil não pode ficar a margem deste esforço. A você Yahoo, que além de excelente jogador (e provavelmente por isso é que foi agredido), mostrou que para ser um Rugbier com R maiúscula, isso só não basta, (é preciso também ter caráter para não revidar a covardia de uma agressão gratuita), desculpas, em nome de todos as pessoas que querem que o rugby cresça com qualidade, e preserve seus valores.
Carlos Pazos